Baterias, o novo petróleo: a corrida pelo armazenamento de energia no Brasil
- solaruxenergia
- 9 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Se você já tem (ou planeja ter) painéis solares, a Medida Provisória 1.304/2025 é o tema mais importante que você lerá este ano. Ela não só confirma o futuro da sua geração, mas também transforma o jeito que você armazena e usa a energia. A palavra-chave é: baterias.

O setor elétrico brasileiro vive seu momento de maior disrupção em mais de uma década.
Em um movimento silencioso para o grande público, mas estrondoso para o mercado, o Congresso Nacional aprovou em outubro a Medida Provisória 1.304/2025, uma das mais amplas reestruturações do nosso marco regulatório. Longe de ser apenas um ajuste técnico, a MP, liderada pelo Senador Eduardo Braga, redesenha o mapa da energia no país e dá o sinal verde para a tecnologia que promete ser o divisor de águas da transição energética: o armazenamento de energia em baterias (BESS - Battery Energy Storage Systems).
Para os desatentos, a discussão pode parecer árida. Para os estrategistas, é a largada de uma corrida pelo ouro. A nova legislação não apenas acelera a abertura total do mercado livre de energia para todos os consumidores, mas, crucialmente, reconhece oficialmente as baterias como um pilar para a flexibilidade e segurança do sistema. A frase do Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ecoa como um alerta e uma profecia: “sem baterias, nós vamos ao colapso energético”. O recado é claro: o futuro da energia no Brasil não será apenas sobre gerar, mas sobre guardar.
A arquitetura de um novo setor: os quatro níveis do armazenamento
A genialidade da MP 1.304 está em sua visão sistêmica. O texto estabelece o que o Senador Eduardo Braga chamou de “quatro níveis de armazenamento”, criando uma arquitetura integrada que vai das gigantescas usinas solares no sertão nordestino à tomada na parede de casa.
Primeiro, nos parques de geração centralizada, onde usinas eólicas e solares receberão incentivos fiscais para acoplar baterias, resolvendo o problema da intermitência. Segundo, em subestações de alta tensão, com o Operador Nacional do Sistema (ONS) definindo pontos estratégicos para instalar grandes bancos de baterias que funcionarão como pulmões da rede. Terceiro, nas redes de baixa tensão, permitindo que as distribuidoras usem o armazenamento para gerenciar o fluxo da geração distribuída. E, por fim, na ponta do consumo, onde residências e comércios poderão ter suas próprias baterias ou pagar uma taxa para que a concessionária faça o investimento.
Essa estrutura cria um ecossistema de oportunidades. A ampliação do Regime Especial de Incentivos (REIDI) para projetos de armazenamento é a cereja do bolo, oferecendo a segurança jurídica e o benefício fiscal que os investidores esperavam. O jogo mudou: armazenar energia deixou de ser um conceito futurista para se tornar um negócio estruturado e incentivado pelo Estado.
LRCAP 2026: o leilão que definirá os novos barões da energia
Se a MP 1.304 foi o tiro de largada, o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026, previsto para abril, será a primeira grande prova. Anunciado em plena COP30, este será o primeiro certame dedicado exclusivamente à contratação de potência de baterias no Brasil. O objetivo é contratar megawatts de prontidão, garantindo que a energia esteja disponível quando o sol se põe e o vento não sopra.
Os números que antecedem o leilão são superlativos. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já cadastrou 126,3 GW em 368 projetos, um sinal claro do apetite do mercado. A consultoria Greener projeta que o mercado de BESS no Brasil, que já viu sua capacidade instalada triplicar entre 2023 e 2024, deve movimentar mais de R$ 23 bilhões até 2030.
Este leilão não é apenas sobre vender energia, mas sobre vender segurança e flexibilidade. As empresas que saírem vitoriosas não serão meras fornecedoras, mas parceiras estratégicas na estabilização de uma rede cada vez mais dependente de fontes renováveis variáveis. Elas se tornarão os novos barões de um setor que, até ontem, era dominado por hidrelétricas e térmicas.
Os desafios da execução: onde o Brasil real se impõe
Apesar do otimismo, o caminho não é isento de obstáculos. O Brasil ainda enfrenta desafios que podem frear o ímpeto dos mais arrojados. O custo das baterias, embora em queda global, ainda é mais alto por aqui, penalizado por uma cascata de impostos e por uma logística complexa. A falta de mão de obra especializada e a infraestrutura de rede, em muitos pontos, inadequada, são gargalos que exigirão investimentos massivos e coordenação entre setor público e privado.
O atraso na regulamentação detalhada, que agora começa a ser resolvida, deixou um rastro de incerteza que preocupou fabricantes e investidores nos últimos anos. A burocracia e a lentidão na definição de regras claras são, como sempre, o maior risco para a velocidade da transformação.
Contudo, para o olhar do estrategista, desafios são sinônimos de oportunidades. Empresas que investirem em logística, capacitação técnica e desenvolvimento de projetos bem estruturados sairão na frente. A complexidade tributária abre espaço para consultorias e estruturas financeiras inovadoras. A necessidade de modernizar a rede é um convite para fornecedores de tecnologia e infraestrutura.
O futuro do setor elétrico brasileiro está sendo escrito agora. A convergência de um novo marco legal com uma demanda reprimida por soluções de armazenamento cria uma janela de oportunidade única. A questão não é mais se o armazenamento de energia vai decolar no Brasil, mas quem serão os pilotos dessa jornada. A corrida começou.







Comentários